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Álvaro de Campos

O Futurista


"Sentir tudo de todas as maneiras."


O Habitante do Terceiro Quarto

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, a 15 de outubro de 1890. Estudou Engenharia Mecânica e Naval em Glasgow, na Escócia, e realizou uma viagem pelo Oriente, que inspirou grande parte da sua obra.

É o poeta da modernidade, da velocidade e da vida urbana. O seu percurso literário divide-se em três fases: a decadentista, a futurista/sensacionista (onde exalta a energia das máquinas e o triunfo da técnica) e a intimista, marcada por um profundo cansaço, angústia existencial e desilusão.

Apresenta-se como o engenheiro sensacionista, aquele que, em contraste com a calma de Ricardo Reis e a simplicidade de Alberto Caeiro, procura vivenciar todos os excessos e emoções até ao limite.


Poema

Tabacaria (Excerto)


Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.